8 de abr de 2011

Quimioterapia - trilha sonora - parte 2

     Agora, a música que realmente representa a trilha sonora da quimioterapia é: A Montanha Mágica.
     Num dos raríssimos momentos de bom humor, falei para a minha mãe e para a equipe toda do hospital que a música tinha sido feita para mim e todos tinham que ouvir comigo e ainda perguntava se queriam autógrafos...

A Montanha Mágica
Legião Urbana
Composição : Renato Russo / Dado Villa-Lobos / Marcelo Bonfá

Sou meu próprio líder: ando em círculos
Me equilibro entre dias e noites
Minha vida toda espera algo de mim
Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde

Minha papoula da Índia
Minha flor da Tailândia
És o que tenho de suave
E me fazes tão mal

Ficou logo o que tinha ido embora
Estou só um pouco cansado
Não sei se isto termina logo
Meu joelho dói
E não há nada a fazer agora

Para que servem os anjos?
A felicidade mora aqui comigo
Até segunda ordem
Um outro agora vive minha vida
Sei o que ele sonha, pensa e sente
Não é por incidência a minha indiferença
Sou uma cópia do que faço
O que temos é o que nos resta
E estamos querendo demais

Minha papoula da Índia
Minha flor da Tailândia
És o que tenho de suave
E me fazes tão mal

Existe um descontrole, que corrompe e cresce
Pode até ser, mais estou pronto prá mais uma
O que é que desvirtua e ensina?
O que fizemos de nossas próprias vidas

O mecanismo da amizade,
A matemática dos amantes
Agora só artesanato:
O resto são escombros

Mas, é claro que não vamos lhe fazer mal
Nem é por isso que estamos aqui
Cada criança com seu próprio canivete
Cada líder com seu próprio 38

Minha papoula da Índia
Minha flor da Tailândia

Chega, vou mudar a minha vida
Deixa o copo encher até a borda
Que eu quero um dia de sol
Num copo d'água

     A montanha mágica, uma das faixas de V - quinto álbum da banda brasileira de rock Legião Urbana, lançado em 1991, retrata a dependência química de Renato. 
     Segundo o próprio Renato, em trechos de uma entrevista para a Folha (1994): “Eu estava me destruindo e, em vez de me matar com um tiro na cabeça, preferi procurar ajuda. Isso vem desde os 17 anos, mas no "V" foi a primeira vez que coloquei na música essas questões. "A Montanha Mágica" é sobre isso. Eu era jovem e acabei entrando num beco sem saída. Isso foi me consumindo, eu ficava deprimido e não sabia o porquê. Achava que o mundo era horrível, igualzinho ao Kurt Cobain, nada mais valia a pena. E isso é estranho porque, se eu achar um dia que as coisas não valham a pena, quero estar com a cabeça no lugar, e não com o corpo cheio de toxinas. Parei com todo tipo de droga e vi que as coisas não eram tão ruins".
      O álbum As Quatro Estações, foi lançado em 1989, mesmo ano em que Renato Russo descobriu ser portador do vírus da AIDS, em pleno auge da carreira. O disco aborda temas como a própria AIDS, na música ‘Feedback Song for a Dying Friend’ e o bissexualismo, em ‘Meninos e Meninas’. O quinto disco ‘V’ foi lançado em novembro de 1991,  foi produzido na época em que Renato tinha descoberto ser portador do HIV, além de passar por problemas no relacionamento amoroso, e com o alcoolismo e drogas.
      Na coletânea Música para Acampamentos (1992), A Montanha mágica" possui três músicas incidentais, uma de Leiber e Stoller ("You've Lost That Lovin' Feelin'"), uma de John Lennon ("Jealous Guy") e uma dos Beatles ("Ticket to Ride").

     Eu não usava drogas, mas lá estava eu, dependente de quimioterapia... Meu joelho doía e aquilo tudo me fazia muito mal... Para que serviam os anjos? Todo mundo saudável vivia a minha vida... Eu era uma cópia e às vezes tudo que eu queria, era um dia de Sol...

     A Montanha Mágica também é o nome de um livro escrito por Thomas Mann em 1924, embora não haja comprovações de uma relação entre as duas obras, é interessante ressaltar que o livro conta a história de um jovem que descobre ter uma doença incurável... Pelas palavras do próprio autor: "o livro narra a história de Hans Castorp, um jovem sem muitas qualidades. Estava um pouco esgotado, ao término de seu curso de engenharia. Antes de assumir um alto cargo na firma dos parentes, vai para um sanatório na montanha para repousar por quinze dias, com o pretexto de visitar o primo tuberculoso. Os médicos descobriram que ele trazia a doença embutida, e fica interno também. Então opera-se uma transformação nele, paulatinamente, à medida em que vai vivendo nesse lugar em que parece que o tempo não existe. Vai conhecendo os hóspedes da clínica, que parece não terem nada de extraordinário. São de fato pessoas comuns que pegaram uma doença incurável, na época, e convivem com ela da melhor maneira possível. Quanto melhor é essa convivência, quanto mais parecem normais, mais ganham profundidade psicológica, mais vamos conhecendo quanto de humano pessoas comuns carregam dentro de si. Como não poderia deixar de ser, há a discussão religiosa – na pessoa de duas das personagens mais interessantes, mais complexas, um escritor e um jesuíta, dois pândegos a princípio, que vão crescendo e dominando a cena. É a cidade de Deus e a cidade dos homens em luta, ambas carregadas de erros, tentando justificar-se e impor-se. O desenlace dessa disputa será o clímax do romance. Sem vencedores, mas com perda e desengano. No entanto, a vida continua. Hans Castorp conhece ou pensa conhecer o amor. Não percebe que quem vive nas suas condições não tem direito de amar. Como se dissesse que quem vive nas condições em que todos nós vivemos a vida não tem direito a amar. É às vésperas da 1ª Guerra Mundial, quando o mundo vai transformar-se. Hans Castorp amadurece de repente – isto é, falamos que ali o tempo não existia, mas é tão vagarosamente que se passam as transformações nas pessoas que, quando vêem, já são outras. Como se fosse de repente. Nada poderia ser de repente num livro de 800 páginas. Nada poderia ser mais surpreendente num livro de tantas páginas, em que não acontece nada, e que nos deixa presos àquele mundo cheio de humanidade, que sangra sem que se perceba, que morre – e olha-se com galhardia a morte –, enquanto vamo-nos enriquecendo interiormente. Não é apenas Hans Castorp que cresce ao longo do romance. Não são apenas as personagens – sem grandeza como nós – que crescem ao longo do romance. Nós também. Ler 'A Montanha Mágica' é aprender a morrer. Quem vive está morrendo um pouco, e nessa montanha se vive muito devagar"...
     Também de um livro de Mann, Tônio Kroeger, é a frase citada em Sereníssima: "Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço".

6 comentários:

  1. O grandessíssimo Renato Russo tem o dom de fazer com que suas músicas pareçam ter sido feitas para nós.

    ResponderExcluir
  2. O Renato Russo com certeza foi o talento em forma humana.
    Estou acompanhando seus textos e estou me sentindo emocionada.
    Ganhou uma seguidora fiel!

    Bom, eu tenho um blog. Se quiser dar uma passadinha e seguir, eu ficarei muito grata (:

    littlerichgirl.blogspot.com

    ResponderExcluir
  3. Assim como voce adoro colocar as músicas de Renato Russo como sendo feitas pra mim..
    muitas delas falam por nós !
    Seguindo sempre !
    =*

    ResponderExcluir
  4. Não tem como não dizer que seu blog não é lindo e o conteúdo deste é maravilhoso.
    Parabéns pelo belíssimo trabalho.
    Já estou seguindo ;D

    http://lamoreinparole.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  5. Não conhecia essa música do Renato Russo. Bem, agora é hora de ouvir.
    Adorei o jeito como você interliga as coisas, citando fatos e experiências e dando um certo tom narrativo a elas. Me sinto em uma sala de aula, hahaha
    Seguindo! (:

    http://heavenswillburn.blogspot.com/

    ResponderExcluir